Neurocientista Miguel Nicolelis faz palestra em Florianópolis

20. maio 2016 | Escrito por | Categoria: Câmpus Florianópolis, Matérias

O neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis ministrou palestra sobre desenvolvimento científico e lançou o livro “Made in Macaíba” na Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc) na noite de 19 de maio. O evento foi organizado pelo centro acadêmico do curso de Engenharia Civil do Câmpus Florianópolis do IFSC, com o apoio da Alesc e da Editora Planeta. Nicolelis foi responsável pelo exoesqueleto comandado pela mente que possibilitou o chute de um tetraplégico na abertura da Copa do Mundo de 2014, além de colecionar prêmios e titulações da comunidade cientifica mundial.

A reitora do instituto, Maria Clara Kaschny Schneider, fez a abertura do evento, que reuniu cerca de 330 pessoas no Auditório Antonieta de Barros. A reitora destacou a ciência como transformadora social, e ressaltou o papel dos institutos federais na construção do conhecimento científico. Ainda em sua fala, observou que “a cultura e a ciência foram relegadas ao segundo escalão” referindo-se à fusão destes ministérios com a educação e a comunicação, respectivamente. “Estamos em um tempo de incertezas e perplexidade, por isso é hora de tomar posição”, defende. Manifestações contra o presidente interino Michel Temer foram proferidas pela plateia.

Uma quebra do protocolo logo no início do cerimonial anunciou o tom informal e bem-humorado de toda a palestra de Nicolelis, que durou cerca de duas horas. A reitora, Maria Clara, faria a apresentação do currículo do cientista, mas não havia sido comunicada com antecedência e acabara de voltar de uma viagem. Desculpou-se e delegou, então, a missão ao próprio palestrante. “Eu gostaria de agradecer à reitora, na verdade, pois em 33 anos de carreira eu nunca tive essa oportunidade”, disse o cientista. “Sou Miguel, neurocientista, palmeirense, acampado há 27 anos nos Estados Unidos, mas que nunca esqueceu de onde veio”, apresentou-se, arrancando palmas do público.

Miguel é paulista e formado em Medicina pela Universidade de São Paulo (USP). Era 1988 quando partiu para os Estados Unidos estudar o cérebro, uma vez que o suporte para pesquisa em neurociência era inexistente no Brasil. Hoje, Nicolelis é professor titular do Departamento de Neurobiologia e codiretor do Centro de Neuroengenharia da Universidade Duke, na Carolina do Norte (EUA). Entusiasta da interiorização dos centros de ensino e desenvolvimento científico, voltou ao Brasil em 2002 para articular a construção de um polo de estudos neurocientíficos na cidade de Macaíba, na região metropolitana de Natal, capital do Rio Grande do Norte.

“Acesso ao conhecimento é um direito fundamental e passaporte para a transformação social”, acredita o cientista. Ele define a rede de institutos federais como estratégicos para o desenvolvimento do potencial humano do País. “Há tempos os governos sabem e os economistas demonstram que o crescimento do PIB em termos brutos está diretamente atrelado à capacidade de inovação do país”, ressalta. Conforme articula o professor, é imperativo que uma nação exporte produtos de alto valor agregado e desenvolva tecnologia de ponta para que defenda sua soberania. “Conhecer é dominar, e estamos no século do conhecimento, por isso o Brasil precisa direcionar seus investimentos para a geração de conhecimento.”

A ideia de Miguel para a pequena Macaíba, com 54 mil habitantes na época, era construir um centro educacional que proporcionasse uma formação continuada – do pré-natal à pós-graduação – e transformasse a realidade da região. Com aporte público, o Instituto Internacional de Neurociências de Natal Edmond e Lily Safra (IINN-ELS) se tornou um polo científico no país e referência em neurociência. Em 10 anos, o Índice de Desenvolvimento Humano do município subiu de 0,508 para 0,640, segundo os levantamentos das Nações Unidas em 2000 e 2010. No item educação, a diferença é ainda mais expressiva: de 0,350 para para 0,545 pontos.

A experiência na periferia nordestina, o projeto Walk Again apresentado na Copa do Mundo de 2014 e os meandros da ciência brasileira são relatados no livro “Made in Macaíba”, lançado no evento. Nicolelis esteve disponível no hall do auditório para autografar os livros adquiridos pelos estudantes, professores e público geral que acompanharam a palestra.

Este foi o primeiro evento organizado inteiramente pelo centro acadêmico de Engenharia Civil do Câmpus Florianópolis. O presidente da organização estudantil, Tiago Bernardes, relata que o convite foi feito ao cientista, por intermédio da Editora Planeta, tanto pelo seu renome quando pela área de pesquisa, de interesse das engenharias do câmpus. Para a entrada na palestra, a organização pediu 1 kg de alimento perecível, que foi doado para famílias carentes do bairro Vila Aparecida.

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