Memórias não se aposentam: satisfação ao reencontrar ex-alunos que viraram professores

3. julho 2015 | Escrito por | Categoria: Câmpus São José, Matérias
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Elza atuou no Câmpus São José, antiga Uned

Hoje publicamos a segunda entrevista do projeto “Memórias não se Aposentam”, uma iniciativa do Centro de Memória, Documentação e Cultura do IFSC (CMDC – IFSC).

A entrevistada é a técnica administrativa aposentada Elza Maria Virgílio, que durante 22 anos atuou em diversas funções no Câmpus São José. Confidências de adolescentes, companheirismo entre colegas, dificuldades com o transporte, greves que duravam meses e novidades tecnológicas fizeram parte da trajetória que iniciou em 8 de janeiro de 1990, quando Elza assumiu o cargo na antiga Uned – Unidade Descentralizada São José. Entre tantas lembranças, ela conta satisfeita que, muitas vezes, recebeu ex-alunos que se tornaram professores, ou filhos de ex-alunos que também escolheram o IFSC. O próprio filho, Felipe, hoje cursa Eletroeletrônica no Câmpus Florianópolis.

Ex funcionária do comércio, Elza encontrou no concurso público uma boa oportunidade. “Para mim, tudo era novidade. Trabalhei em vários locais, desde a limpeza, depois telefonista, na portaria, orientação de turno, protocolo e na biblioteca, onde fiquei por oito anos e me aposentei”.

Ela sempre assumiu funções de atendimento direto aos alunos, por isso se tornou amiga de muitos. “Tem uma menina que eu lembro até hoje, que se chamava Fernanda, como a minha filha, e que sempre me mandava bilhetinhos e me pedia conselhos”, recorda.

A primeira impressão

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Servidora fez muitas amizades entre os alunos

Elza lembra que quando chegou ao Câmpus, ainda não havia cadeiras para todos e a posse dos novos servidores foi realizada no Auditório, pouco tempo antes da inauguração oficial. Moradora do bairro Ribeirão da Ilha, eram duas horas para ir e duas para voltar, todos os dias. Havia poucos ônibus e muitos motoristas não subiam até o Câmpus, obrigando os servidores a caminhar um bom pedaço, “subindo o morro”. Desde então foram muitas histórias, como a cachorrinha chamada “Uned”, que era cuidada por todos. “Ainda tem uns filhotes dela por lá”.

Quando era orientadora de turno, Elza tinha a função de cobrar o uso do uniforme. Lembra que muitos alunos não gostavam, alguns tiravam as mangas da camisa, rasgavam, mudavam o uniforme, eram rebeldes.

No início, a Unidade contava com apenas dois cursos, os integrados em Telecomunicações e Ar-Condicionado e Refrigeração. Eram frequentes as gincanas entre os professores e os alunos e os tradicionais “trotes” no início de ano. Também aconteciam as festas mensais de confraternização dos servidores.

Mudanças ao longo do tempo

Em 22 anos de trabalho, foram muitas mudanças. Chegaram muitos cursos novos, como os de nível superior. O público também mudou muito, com pessoas mais velhas voltando a estudar, e outras que desistiram e retomaram o curso. “Muitos voltavam para dizer que estavam casados, com filhos, essas coisas. Muitos nos encontram na rua e chamam de tia, mas às vezes a gente nem lembra do nome, pois foram muitos alunos!”.

Um motivo de alegria era encontrar funcionários e professores que já foram alunos. “Às vezes a gente se confundia, achando que era aluno e já era professor, querendo dar aula. Então a gente pensava, puxa vida, o tempo passou tão rápido! É um sentimento bom, de ver como eles levaram a sério a coisa”. Também chegou a receber muitos filhos de ex-alunos.

Ela observa, ainda, uma mudança no perfil dos alunos. O contato entre os estudantes e servidores foi ficando mais informal, como por exemplo, tratar o professor por “você” ao invés de “senhor”. “Os pais trabalham mais fora, as crianças são criadas por outras pessoas, e os adolescentes têm mais liberdade. Acho que é por isso que agora tem mais indisciplina que antes”, afirma.

Segundo Elza, nas reuniões escolares, quem sempre participava eram os pais de bons alunos. Os dos alunos “aprontões” nunca apareciam. “Teve um caso de um pai que chegou procurando pela filha, e eu falei que ela não aparecia há mais de um mês. Ele brigou comigo, disse que sempre a deixava na frente da escola. Depois descobriu-se que ela saía com o namorado todos os dias. Ele não veio me pedir desculpas. Mas é assim mesmo, até nossos filhos fazem isso com a gente”.

Quando chegou ao IFSC, nada era informatizado e ainda havia o cargo de datilógrafo. “O computador era um bicho de sete cabeças”, conta. Na biblioteca, a catalogação de livros era feita em fichas. “Na biblioteca a gente fazia o inventário, contar livro por livro, ver os que estavam ainda aí, quais tinham sumido, e a gente nem sabia como resgatar, se era aluno que levou, se não devolveu…”, relembra. Aprender os novos sistemas foi difícil, mas a informatização acabou facilitando a vida de todos. “Eu e a minha colega, um dia a gente aprendia, no outro esquecia tudo. A gente deu trabalho para os bibliotecários. A gente tinha medo de mexer, achava que ía quebrar o aparelho. Depois, quando eu aprendi, me aposentei. Mas acho que está bem melhor trabalhar agora”, recorda.

Companheirismo

As recordações de amizade e companheirismo são muitas, uma “grande família”. Eram frequentes as festas e os almoços na escola, os lanches na cozinha, em que todos aproveitavam para falar dos filhos e das histórias pessoais.

São também muitos casos engraçados, como do amigo Djalma, já falecido, que trabalhava na manutenção. “Um dia, ele estava no almoxarifado, e ligaram pedindo se o ‘púlpito’ estava lá. E ele respondeu: ‘não, eu estou sozinho aqui’”.

Momentos difíceis

Para Elza, os momentos mais difíceis enfrentados eram as greves, que se estendiam por meses. “As greves eram necessárias, mas nem sempre conseguíamos o que queríamos. Quando voltávamos era difícil, tinha que repor aulas, muitos alunos reclamavam. Essa era a parte ruim”, conta. Em 1993, Elza participou de uma manifestação na avenida Mauro Ramos, grávida, e no dia seguinte teve seu bebê. “A passeata foi muito boa”, brinca.

De modo geral, disse que nunca teve grandes problemas. “Eu era marcada na escola porque eu era meio ‘light’, estava sempre rindo e falando com os alunos. Diziam que eu devia ser mais rigorosa, mas eu não sabia ser rigorosa, meu jeito é assim”, recorda Elza, sobre seu jeito espontâneo de tratar a todos.

Dever cumprido

“Depois que me aposentei, fui duas ou três vezes só na escola. Logo que me aposentei, parece que na hora de sair de casa, faltava alguma coisa. Agora canto em corais, viajo, parece que a gente não faz parte mais da coisa”, conta. Elza ainda participa do Sindicato e assim visitando os câmpus e encontrando os antigos colegas.

* A série de entrevistas “Memórias não se Aposentam” é um projeto do Centro de Memória, Documentação e Cultura do IFSC (CMDC – IFSC). O objetivo é preservar um patrimônio valioso: a memória dos servidores aposentados, que muito contribuíram para a instituição ser o que é hoje, e resgatar fatos que marcaram a história do IFSC na visão de seus protagonistas. A série será publicada no Portal do IFSC e no Link Digital quinzenalmente, às sextas-feiras.

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