Pesquisa explora hábitos de plantio urbano em bairro de Gaspar

22. abril 2016 | Escrito por | Categoria: Câmpus Gaspar, Cotidiano, Matérias

Conhecer a relação entre os moradores do bairro Bela Vista, em Gaspar, e as plantas que cultivam em suas propriedades foi o objetivo de uma pesquisa conduzida no câmpus do IFSC naquela cidade. Por meio de 121 questionários, professores e bolsistas fizeram levantamento de quais e quantas espécies os habitantes do bairro possuem em seus quintais, como cuidam delas e exploraram temas como a preocupação com alimentação saudável e uso de agrotóxicos, entre outros. Além disso, colheram informações que podem subsidiar futuros trabalhos, incluindo cursos de extensão e projetos para geração de renda.pesquisagaspar2

O bairro Bela Vista, onde está localizado o Câmpus Gaspar do IFSC, fica na zona urbana da cidade, próximo do limite com Blumenau. É um bairro predominantemente horizontal, com poucos prédios, e tem população de aproximadamente 8 mil pessoas. A coordenadora do projeto, a professora Andrea Becker Delwing, conta que uma de suas motivações com a pesquisa foi aproximar o Instituto Federal da comunidade do entorno. “Quando cheguei aqui [removida do Câmpus Canoinhas, há dois anos], notei que o bairro é muito bonito, mas as pessoas ainda se veem distantes do IFSC. Moram perto, mas não se apropriam da instituição”, comenta.

Outros motivos que levaram Andrea a coordenar a pesquisa foram sua experiência profissional e visão de mundo. Formada em Biologia, com mestrado na área de Agronomia, ela já trabalhou com pesquisas sobre agroecologia no Rio Grande do Sul, seu estado natal, e durante os dois anos em que atuou no Câmpus Canoinhas. Para ela, as pessoas devem “ver a alimentação como ato político” e, por isso, ela pretendeu levantar dados sobre alimentação saudável, uso de agrotóxicos e possibilidade de uso da agricultura urbana para geração de renda e emancipação das pessoas.pesquisagaspar5

Embora esteja em área urbana, o Bela Vista possui muitos moradores que mantêm o hábito de plantar em seus quintais. Dos 118 entrevistados, 90% relataram ter algum cultivo. O maior grupo (45%) é o daqueles que cultivam de seis a 20 espécies diferentes e há um número significativo (14%) de pessoas que cultivam 60 espécies ou mais.

Os pesquisadores observaram que o plantio de espécies vegetais nas residências do bairro é uma atividade cultural, passada de geração para geração. “É difícil que pessoas sem contato anterior com plantio tomem a iniciativa de plantar”, diz Rafael Oliveira Dias, estudante do curso técnico integrado em Química do Câmpus Gaspar, que atuou como bolsista no projeto. Uma das descobertas da pesquisa foi de que há muitos moradores do Bela Vista que vieram do Oeste do Estado e trouxeram consigo o hábito de plantar.

Mulheres, idosos e aposentados são os que mais plantam

pesquisagaspar3O perfil de quem planta, segundo os pesquisadores, é bem definido. Na maioria, são mulheres (60%), idosos e aposentados. “Quem trabalha afirma que tem dificuldade de encontrar tempo para cuidar da horta”, conta Andrea. A maioria (85%) mantém pelo menos uma espécie alimentar, condimentar ou medicinal em seu quintal.

Os pesquisadores conseguiram identificar três tipos principais de plantio no bairro. Há o que eles chamam informalmente de horta “plastificada”, na qual há mais preocupação com a estética e embelezamento da residência e do bairro; e quintais de policultivos, com espécies variadas, e cujos objetivos vão desde o bem estar pela simples prática de manejar a terra e plantas até diminuir os gastos com alimentação – 16% dos entrevistados disseram que as plantas ajudam na economia com comida, embora não consigam gerar renda com elas.

pesquisagaspar4As hortas também ajudam na integração entre os moradores do bairro. Do total de entrevistados, 21% afirmaram que obtiveram as sementes para plantar em trocas com vizinhos e familiares e 38% conseguiram-nas por trocas ou comprando.

Muitos moradores do Bela Vista (37%) preocupam-se com o excesso de agrotóxicos nos alimentos que compram e quase um quarto deles (23%) afirma que tenta manter uma dieta saudável. No entanto, não houve menção à preocupação com produtos transgênicos. Para a professora Andrea Delwing, isso mostra que é necessário promover nas comunidades discussões a respeito das novas tecnologias alimentares e seu impacto na saúde.

Pesquisa rende exposição e outros projetos

Além de entrevistar os moradores, os pesquisadores do IFSC colheram amostras das plantas e tiraram fotografias das propriedades, que ficaram expostas por 19 dias no Câmpus Gaspar em junho de 2015. Da pesquisa também resultou um projeto de extensão que será desenvolvido por meio de oficinas à comunidade até agosto. A primeira oficina ocorreu em 11 de abril, no próprio câmpus.

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Fotografias das plantas e das propriedades renderam exposição no Câmpus em junho de 2015

Na segunda oficina, no dia 25, próxima segunda-feira, será discutida, de forma participativa com moradores do bairro, a implantação de uma horta comunitária. Os entrevistados avaliam de maneira positiva a hipótese de criar uma horta comunitária: 70% mostraram interesse em participar de uma iniciativa desse tipo e 69% consideram-na interessante e viável.

A professora Andrea Delwing conta que outra possibilidade é criar uma casa de vegetação alternativa, para fazer trocas de mudas entre moradores do bairro e região e alunos em atividades socioambientais. Também para fins didáticos, está em implantação o Laboratório de Etnobotânica, junto ao laboratório de Microbiologia e Biologia do Câmpus Gaspar.

Pesquisadores comemoram aprendizado

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Professora Andrea Delwing com os bolsistas Rafael Dias e Júlia da Silva

Com um estudo de caráter exploratório, os pesquisadores do IFSC comemoram o fato de conhecer melhor o perfil etnobotânico (etnobotânica é ramo da botânica que estuda o uso das plantas pelos povos) dos moradores do bairro onde o câmpus está inserido e o aprendizado que o contato com eles trouxe. “Podemos aprender muito com eles e ensiná-los também, juntando o saber popular com o científico”, diz Andrea Delwing.

A participação na pesquisa trouxe crescimento pessoal para Rafael Dias. “Eu era muito tímido a acabei me soltando com as entrevistas. E ela me fez descobrir uma nova área e mudar o curso superior que pretendo fazer [queria Química e agora prefere Biologia]”, diz o estudante de 18 anos, que mora no bairro Figueira, em Gaspar, vizinho ao Bela Vista, e está no sexto módulo do curso técnico em Química. Além dele, foi bolsista no projeto sua colega de turma Júlia Êmili da Silva, 17 anos. Apoiaram a realização do estudo, ainda, os professores Kleber Renan de Souza Santos, Robson Raulino Rautenberg e Saulo Vargas.

Fotos cedidas pela equipe de pesquisadores

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