Manifesto no Câmpus Joinville discute machismo e a cultura do estupro

17. junho 2016 | Escrito por | Categoria: Câmpus Joinville, Cotidiano, Matérias

O Câmpus Joinville foi revestido de cartazes, vozes e empoderamento feminino com o objetivo de intensificar a luta contra o machismo e a violência de gênero. O Manifesto Contra a Cultura do Estupro, nesta terça e quarta-feiras (14 e 15), uniu estudantes e servidores em ações de sensibilização sobre a importância da igualdade de gêneros e do papel da escola na discussão deste complexo de crenças que encoraja a agressão sexual masculina contra mulheres.

Relatos de vítimas de assédio e violência e frases de ordem ilustraram cartazes e faixas afixados na entrada, passarelas, corredores e paredes do Câmpus. O assunto também ganhou voz em intervenções durante os intervalos, na leitura de contos, num projeto experimental de rádio e na palestra com a filósofa Patrícia Rosa, do Câmpus Florianópolis.

Para Enya Melissa Murara, do sétimo módulo do curso técnico integrado em Eletroeletrônica, e colegas do terceiro módulo do curso, Victor Emmanuel Marins Santana, Thalita Aguiar Manhane e Aline Cristina Costa Metzner, que tomaram a frente em diversas atividades, a experiência foi muito positiva. “A educação é fundamental para a mudança de qualquer sociedade. Não adianta fazer políticas se a base não for trabalhada”, acredita Enya.

“É extremamente importante conscientizar todos sobre assuntos relacionados à igualdade de gênero, apesar que isso deveria ser aprendido em casa. Mas, como não é, a gente tem que discutir na escola”, concorda Victor. “O primeiro passo foi dado para conscientizar aqui dentro. Agora, temos que levar a discussão para fora, lutar por mais respeito”, explica Aline.

A expectativa do grupo é que o movimento ganhe força dentro do IFSC, com a adesão de mais colegas, e promova discussões e mudanças no dia a dia da escola e, posteriormente, fora dos muros também. “Não podemos deixar as coisas se acomodarem. Ainda falta muito questionamento e nossa luta pela igualdade não pode ser só de dois dias. Temos que levar para toda vida”, enfatiza Thalita.

O manifesto foi motivado pelos casos recentes de estupro coletivo, que ganharam repercussão em todo país e reacenderam o debate sobre a cultura do estupro, que é o termo “usado para abordar as maneiras em que a sociedade culpa as vítimas de assédio sexual e normaliza o comportamento sexual violento dos homens”, segundo a ONU Mulheres.

Palestra

O machismo e a violência contra a mulher, assim como as demais agressões contra grupos minoritários, têm origem na luta pelo poder. Este foi o enfoque da palestra sobre igualdade de gêneros, conduzida pela professora Patrícia Rosa. “Cada vez que um homem se coloca acima de uma mulher, ele quer provar seu poder.”

Para comprovar a relação entre questão de gênero e poder, a filósofa fez um regresso histórico da visão que a sociedade tem do papel da mulher no mundo, incluindo os aspectos religiosos, culturais, sociais e econômicos, e da luta pela igualdade de direitos, passando pela idade medieval, o período da inquisição e as grandes revoluções trabalhistas. “É importante lembrar que não é da natureza dos homens serem machistas. Eles foram ensinados assim”, observa.

Ao justificar a necessidade de ainda se ter que falar sobre feminismo, Patrícia Rosa citou as contribuições da legislação brasileira, que são muito recentes. Dentre os exemplos, destaque para a Constituição de 1988, que só então passou a considerar que homens e mulheres têm a mesma igualdade de direitos na relação conjugal, e para a Lei Maria da Penha, de 2006, criada para coibir e prevenir a violência doméstica contra a mulher originária das relações afetivas.

Conforme a filósofa, apesar dos esforços, a violência contra a mulher tem aumentado, como mostra pesquisa do Instituto Avon/Data Popular, de 2013, em que 56% dos homens admitiram ter cometido atitude que caracteriza violência contra a mulher, como ofensas verbais e agressões físicas. “Cada vez que a gente luta para se livrar das amarras, mais fortes as cordas vêm pra cima da gente”, alerta.

Ciente da importância de se trazer esta discussão para o IFSC, professora Patrícia acredita que os alunos precisam ter acesso à informação. “A partir do momento em que os alunos ouvem algo fora do que a mídia veicula, eles terão a opção de pensar e escolher que tipo de pensamento eles querem ter.”

Tainara Voit, Thais Emily Silvano, Leonardo Cardoso e Leandro Felipe Moreira, do oitavo módulo do curso técnico integrado em Mecânica, concordam com a necessidade de se ampliar as discussões, principalmente nos cursos técnicos.

“Ainda temos muito presente a coisa do machismo, de que a mulher não tem espaço no mercado de trabalho”, exemplificam. “Não podemos voltar para a rotina, onde o machismo se naturaliza. Temos que problematizar mais.”

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